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Imagem A Ilíada

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Eleições e o “Ano de Troia” no Brasil e nos Estados Unidos

A Ilíada não é, essencialmente, uma história sobre a Guerra de Troia ou sobre o lendário cavalo de madeira. É uma história sobre escolhas — escolhas políticas, rivalidades pessoais e decisões aparentemente pequenas que desencadeiam forças muito maiores do que seus autores imaginam controlar.

Agamêmnon e Aquiles não comandam a guerra tanto quanto acreditam: ambos são empurrados por correntes que não dominam. É nessa imprecisão entre intenção e consequência que a Ilíada encontra sua força e sua atualidade.

O poema nos lembra que guerras nunca são apenas militares. São disputas de reputação, honra, estratégia, coalizões e destino. E eleições também são assim.

O ano de 2026 caminha para ser o nosso “Ano de Troia” no Brasil e nos Estados Unidos — um período em que cada decisão política influenciará juros, moedas, fluxo de capitais, energia, inteligência artificial, geopolítica e confiança institucional.

Nos Estados Unidos, as midterms se tornam um novo campo de batalha. Trump, como um Agamêmnon moderno, busca consolidar hegemonia política ao garantir o controle do Congresso. Ele sabe que quem controla o Congresso controla o ritmo do gasto público, o alcance da política industrial, a intensidade da competição tecnológica e o tom das tensões geopolíticas.

No Brasil, o provável confronto entre Lula e Tarcísio remete ao duelo entre Aquiles e Heitor — duas formas distintas de liderar, dois projetos de país, duas leituras sobre o papel do Estado.

É mais do que uma disputa eleitoral: é um choque entre interpretações opostas da responsabilidade fiscal, da produtividade, da política industrial e do ambiente de negócios.

E, tal como Helena na narrativa homérica, o verdadeiro objeto dessa disputa é simbólico: não se decide apenas quem governa, mas quem define a narrativa do futuro brasileiro.

No fim, a pergunta que Homero faria aos investidores de 2026 permanece brutal e direta: Estamos lutando para conquistar Troia — ou apenas para não perder o nosso próprio acampamento?

ESTADOS UNIDOS: O CERCO PROLONGADO E O CANSAÇO DAS MURALHAS

O cerco de Troia não foi um momento súbito ou um choque decisivo. Foi uma década inteira de desgaste, um esforço lento, extenuante e repetitivo, no qual os gregos avançavam e recuavam, conquistavam terreno apenas para perdê-lo novamente, e lutavam não apenas contra os troianos, mas contra a fadiga do próprio exército. Era o próprio peso da manutenção do cerco que corroía a força dos aqueus.

Os Estados Unidos entram em 2026 dentro dessa mesma lógica: um cerco fiscal longo, desgastante e cada vez mais difícil de sustentar. Há anos o país opera com déficits volumosos, ao mesmo tempo financiando política industrial, programas sociais amplos, tarifas redistributivas e agora um ciclo de investimentos extraordinários em inteligência artificial e infraestrutura energética. O que outrora parecia apenas um gasto elevado tornou-se, gradualmente, um esforço prolongado — um cerco que custa cada vez mais manter.

A midterm de 2026 impõe uma intensificação desse esforço. Para Donald Trump, garantir o controle do Congresso é um imperativo existencial: perder a eleição significa perder o poder absoluto na última oportunidade de seu mandato, e, consequentemente, ter menos controle sobre a agenda de governo.

Tal como Agamêmnon diante das muralhas de Troia, ele sabe que não pode reduzir a pressão no momento crucial. Especialmente no contexto atual, onde a inflação ainda acima da meta no contexto pós-pandemia encontrou o impacto de tarifas comerciais.

Esse quadro tem gerado uma centralidade cada vez maior do tema “custo de vida” para o eleitor, quando o mercado de trabalho dá sinais de fragilidade. Em especial, o momento atual da economia americana se configura como um “crescimento em K”, onde o consumo de alta renda se sustenta enquanto o consumo da baixa renda perde tração.

Para manter a coalizão política e evitar perda de popularidade, o caminho do governo será injetar mais impulsos fiscais para reerguer a atividade econômica da parcela mais sensível da população. Parte disso já está contratada pelos cortes de impostos da “Big Beautiful Bill”, cujo impacto se fará sentir na transição do primeiro para o segundo trimestre.

A ideia mais recente propagandeada pelo presidente é usar parte das receitas extras das tarifas para “devolver” para a população via cheques ou rebates de impostos. Seria equivalente a mais 0,5% de PIB na mão do consumidor.

O problema, como Homero descreveu, é que uma guerra prolongada desgasta quem a conduz. Com uma dívida que já ultrapassa os maiores níveis desde a Segunda Guerra, com o custo de rolagem se elevando e com uma inflação de serviços ainda resistente, a repetição dos mesmos instrumentos pode acabar alimentando a própria instabilidade que se deseja conter.

É bom lembrar que, durante a pandemia, a mesma receita de cheques para a população contribuiu para o choque inflacionário de forma relevante, além de ter garantido a reação rápida da atividade. A diferença hoje é que já estamos partindo de inflação acima da meta, PIB resiliente e déficit elevado.

Esse desgaste constante não poupa as principais âncoras do sistema financeiro. Expansão fiscal adicional combinada com um Federal Reserve remodelado por indicações de Trump — provavelmente mais tolerantes à inflação visando cortes de juros — cria um ambiente no qual a credibilidade fiscal passa a depender não apenas da política monetária, mas, principalmente, da capacidade de crescimento da economia. Nesse sentido, dólar e taxas longas ficam sob os holofotes.

E é justamente aí que a guerra muda de forma. O crescimento americano, neste ciclo, depende diretamente da inteligência artificial, mas esse motor começa a dar sinais de transição. O grande impulso de CAPEX promovido pelas big techs, crucial para o avanço inicial da IA, aproxima-se de um limite natural: os investimentos marginais exigem volumes cada vez maiores de dívida corporativa e a próxima fase da revolução tecnológica exigirá algo diferente — receita, não apenas infraestrutura.

Google, OpenAI e Anthropic precisarão demonstrar que o crescimento de usuários e produtos corporativos pode finalmente sustentar o retorno do capital investido.

A soma de tudo isso — o estímulo contínuo, o Fed mais brando, a inflação estrutural, o endividamento crescente e a dependência do crescimento via I.A. — coloca pressão simultânea sobre o dólar e a curva longa de juros. É o equivalente moderno às rachaduras que surgiam nas muralhas de Troia após anos de cerco: pequenas no início, mas cada vez mais difíceis de ignorar.

A direção da pressão fiscal em uma economia com inflação alta nos leva a crer que o Fed pode ser forçado a encerrar seu ciclo antes do que se imagina, ainda que a contragosto dos nomes indicados pela Casa Branca. Ou, mais do que isso, que o mercado vai manter pressão elevada sobre o prêmio da curva e as taxas longas.

BRASIL: O DUELO DE HEITOR E AQUILES

A eleição brasileira de 2026 se apresenta desde já como o mais claro retrato político da dualidade entre Heitor e Aquiles. Não por atribuir a um deles a glória e ao outro a ruína, mas porque cada candidato encarna, simultaneamente, a força de Heitor e a vulnerabilidade de um calcanhar exposto de Aquiles.

O incumbente, como o defensor já estabelecido atrás das muralhas que conhece como ninguém, carrega a potência da continuidade, mas também o peso de uma rejeição estrutural que o acompanha há anos.

O desafiante, impulsionado pelo apoio de parcelas centrais do empresariado e do PIB, surge como a força emergente que pode capturar o desejo de mudança, mas enfrenta a realidade implacável de disputar contra a máquina administrativa em um país onde incumbência costuma valer mais do que retórica.

Nossas análises eleitorais mostram que esse duelo terá geografia própria. No Nordeste, a vantagem do incumbente é quase imutável ao longo dos ciclos: oscila, mas não se altera em essência.

É no Sudeste que a batalha será travada, e é justamente aí que reside um dos elementos mais surpreendentes deste ciclo: o incumbente superou as expectativas na eleição passada e, hoje, lidera as intenções de voto na cidade de São Paulo.

Do lado econômico, o terreno sobre o qual esses heróis contemporâneos duelam está longe de ser uniforme. O segundo semestre se inicia com a economia praticamente estagnada, o mercado de trabalho perdendo o ímpeto de melhora e a inflação surpreendendo sistematicamente para baixo.

Tudo indica que o Banco Central cumprirá a meta dentro do intervalo neste ano, com expectativas em queda — ainda que sem tocar os 3% formais. Para 2026, esperamos núcleos rodando abaixo de 4%, o que, aliado à desaceleração da atividade em curso, irá criar condições suficientes para o Banco Central começar a reduzir o aperto monetário no primeiro trimestre.

Em anos eleitorais, incumbentes costumam ganhar tração por meio de comunicação intensiva e medidas de impacto imediato. Mas desta vez, a margem é estreita demais para arranjos expansivos. O governo precisa equilibrar ambição política e responsabilidade fiscal, inclusive para não correr o risco de perder o eleitor mediano.

Já o desafiante precisa provar que pode oferecer um programa minimamente crível aos olhos de um país que já pagou caro por aventuras fiscais, mas encontra uma população que já não tolera mais aumentos de impostos.

Esse quadro gera um paradoxo fascinante: inflação baixa, alimentos mais baratos e desemprego nas mínimas favorecem quem está no poder; mas a população carrega um cansaço difuso, um desejo pelo novo que pode se materializar se houver coordenação política no campo oposicionista.

A metáfora homérica volta a se impor: não é a força absoluta que definirá o resultado, mas o grau de exposição do calcanhar de cada lado — a rejeição, a máquina, a narrativa, a capacidade de entrega e a condição econômica.

A partir desse pano de fundo, exploramos hoje as três vertentes centrais dos ativos brasileiros. No real, avaliamos o potencial do carrego (carry) num ambiente de juros ainda elevados e volatilidade relativamente baixa.

Na bolsa, examinamos a possibilidade de um fechamento relevante dos juros longos, caso a combinação de inflação comportada e cortes do Banco Central reduza o prêmio exigido pelo mercado.

E, nos juros, analisamos o início de um ciclo de redução do aperto monetário a partir do primeiro trimestre, cuja extensão pode ser mais profunda do que o mercado atualmente precifica.

Por fim, na inflação, hoje o mercado precifica que esta irá convergir para 3,3% já em meados de 2026. Estamos comprando essa inflação como proteção para nossas posições para quedas de juros no país. Afinal, se o mercado estiver certo de que a inflação irá para tão perto do centro da meta, o espaço para corte do BC deverá ser maior do que os 250bps que estão na curva de juros.

Essas três frentes — câmbio, equities e taxa de juros — compõem o mapa estratégico para navegar o Brasil neste duelo de heróis, onde força e fraqueza caminham lado a lado, e onde o veredito final será dado não pela lança, mas pela urna.

AS AÇÕES GLOBAIS : OS HERÓIS QUE PRECISAM PROVAR SEU VALOR

Na Ilíada, não basta que Aquiles seja o maior dos guerreiros: é preciso que ele entre em campo e demonstre sua força. Da mesma forma, o mercado chega a 2026 exigindo que os grandes protagonistas da tecnologia — as big techs — mostrem resultado real, não apenas promessa.

O ano de 2025 foi marcado por uma expansão extraordinária de CAPEX, um ciclo de construção de data centers que cresceu trimestre após trimestre e levou o investimento combinado das hyperscalers a superar a marca de US$ 600 bilhões.

Essa ofensiva gigantesca — comparável ao momento em que os aqueus decidem mobilizar a totalidade de seus recursos para pressionar Troia — teve um custo financeiro claro: empresas como Oracle recorreram massivamente ao mercado de dívida para financiar seus projetos.  A infraestrutura está erguida. Agora, como na guerra homérica, chegamos ao momento em que o herói precisa justificar a própria lenda.

Chegamos ao ponto em que empresas como OpenAI, Google e Anthropic terão de provar que podem converter infraestrutura em monetização; que podem transformar modelos em produtos corporativos, agentes em faturamento recorrente e inferência em margens.

A batalha do CAPEX chegou ao fim, agora começa a batalha da receita e é ela que definirá quem são os verdadeiros heróis deste ciclo tecnológico.

A BOLSA BRASILEIRA: O VAOR DOS REAIS DEFENSORES

Se nas ações globais o desafio é provar monetização, no Brasil o dilema é mais clássico — quase homérico em sua simplicidade: o país precisa de credibilidade fiscal para destravar o potencial da renda variável.

O prêmio de risco dos ativos brasileiros já está próximo da média histórica, mas com os juros reais longos ainda em níveis incompatíveis com um ciclo sustentável de valorização dos ativos domésticos.

Assim como Troia dependia da força de suas muralhas para resistir, o Brasil depende da precisão do discurso fiscal nas eleições para reduzir o prêmio de risco. Uma proposta fiscalista crível — capaz de comprimir a parte longa da curva de juros — tem potencial de deslocar toda a estrutura de preços dos ativos reais.

Se essa muralha for reforçada, a valorização da bolsa brasileira pode ser significativa.

Por isso, permanecemos comprados: o upside potencial é elevado para ser ignorado, e seu gatilho está intimamente ligado ao posicionamento que emergirá do duelo eleitoral — o nosso Aquiles e Heitor doméstico.

COMMODITIES: METAIS, MATERIAIS E FOGO – OS ELEMENTOS DA GUERRA

Na Ilíada, a força dos exércitos não depende apenas dos heróis — depende também dos elementos que sustentam a própria guerra: os metais com que se forjam armas e escudos, os materiais que compõem carros e couraças, e o fogo que permite a vida nos acampamentos, que tempera o bronze, que cozinha o alimento e ilumina a noite.

Em 2026, as commodities assumem esse papel homérico: são os metais, os materiais e o fogo que dão estrutura ao campo de batalha econômico, moldando a resistência de cada exército — países, empresas, políticas monetárias.

OURO: O METAL DAS COMMODITIES

O ouro é o símbolo divino na Ilíada, seu valor não depende da guerra, mas da incerteza que a guerra produz.

Em 2026, ele segue desempenhando esse papel. Em um mundo pressionado por déficits elevados, valuations esticadas e concentração excessiva em I.A., o ouro mantém sua função de metal eterno, refúgio diante da névoa da batalha fiscal e da fragilidade institucional.

PETRÓLEO: O MATERIAL DA GUERRA MODERNA

Se o ouro é o metal divino, o petróleo é o material da guerra moderna. Este moveu os exércitos do século XX e continua sendo parte essencial do arsenal energético global. Sua trajetória recente é de enfraquecimento, reflexo de uma oferta resiliente e de um cartel fragmentado.

Entretanto, há um piso funcional: abaixo de US$ 50 por barril, a produção norte-americana começa a se deteriorar, sinalizando o limite fisiológico da própria indústria.

Assim como o bronze da Ilíada, o petróleo permanece necessário, ainda que sua importância relativa diminua.

GÁS NATURAL: O FOGO SAGRADO DA ERA DA I.A.

Entre todos os elementos da guerra homérica, o mais simbólico é o fogo, o elemento vital. O gás natural é esse fogo contemporâneo. Sem ele, não há energia; sem energia, não há I.A.; sem I.A., não há o crescimento americano de que dependerá o dólar e a política fiscal dos EUA em 2026. O gás se tornou o combustível estratégico do século XXI, sustentando a explosão de demanda elétrica oriunda da I.A.

Sua importância cresce à medida que outras fontes mostram limites: renováveis intermitentes, hidrogênio sem escala, nuclear sem velocidade, carvão sem legitimidade. O gás é o fogo que alimenta o cerco — o elemento central que os aqueus modernos não podem perder.

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A Ilíada termina sem mostrar o fim da guerra. Homero encerra seu poema antes do cavalo, antes da queda das muralhas, antes do incêndio final, e faz isso por uma razão: o interesse da epopeia não é o desfecho militar, mas o modo como as escolhas dos homens moldam o rumo dos acontecimentos.

Troia cai, mas poderia não ter caído. Aquiles triunfa, mas morre jovem.

Heitor é derrotado, mas se torna símbolo de dignidade. Agamêmnon conquista a cidade, mas perde o próprio destino quando retorna à casa.

A Ilíada não é sobre vitória; é sobre o preço da vitória.

O ano de 2026 nos coloca diante dessa mesma ambiguidade: o resultado das batalhas políticas é importante, mas o custo delas será ainda mais determinante.

Nos Estados Unidos, o cerco fiscal prolongado pressiona o dólar e alonga a inclinação natural da curva. Um país que apostou durante anos na arma monetária agora precisa lidar com as consequências de tê-la usado repetidamente – e cada nova rodada de estímulos pode ser o golpe que racha as muralhas que antes pareciam invioláveis.

No Brasil, o duelo eleitoral definirá a trajetória dos juros reais e, consequentemente, o valor de todos os ativos domésticos. A chance de um ciclo virtuoso existe – e é significativa. Mas como na luta entre Aquiles e Heitor, a vitória não dirá tudo; dirá, sobretudo, quem define a narrativa do dia seguinte.

O próximo ano será assim. Não vencerá quem for mais forte, mas quem entender melhor o preço real da vitória.

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