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A segunda onda das renováveis: agora com baterias
Lançado em 2014, Whiplash – Em Busca da Perfeição é um filme de drama psicológico. A trama acompanha Andrew Neiman (Miles Teller), um jovem baterista de jazz obsessivamente dedicado, sob a tutela implacável do maestro Terence Fletcher (J.K. Simmons).

O filme explora o limite entre motivação e abuso na busca pela excelência artística, embalado por sequências intensas de prática musical. Whiplash foi aclamado pela crítica, rendendo 5 indicações ao Oscar e vencendo 3 prêmios da Academia, solidificando-se como uma das obras mais marcantes de sua década.
Por que usamos Whiplash como analogia neste Kinea Insights?
Em Whiplash, o maestro Terence Fletcher aterroriza seus alunos com uma obsessão pelo tempo perfeito. No mundo da energia, o grid elétrico é nosso Fletcher: a frequência da rede elétrica (60hz) é o andamento sagrado que não pode oscilar.
A transição energética vive hoje exatamente o drama do protagonista Andrew Neiman: temos fontes renováveis talentosas (solar e eólica), mas que têm enorme dificuldade em manter o “tempo” do grid. Elas tocam quando querem (quando venta ou faz sol), e não quando a música pede.

Essa falta de sincronia é um dos fatores que obrigam o operador do sistema elétrico a limitar, eventualmente, a geração das fontes renováveis. Esse efeito é conhecido como curtailment. Esse é o paradoxo da energia renovável: quanto mais renováveis no grid, mais cortes arbitrários nessas fontes são necessários para manter a saúde do sistema elétrico.

O curtailment, portanto, é uma solução subótima, pois gera desperdício de energia de uma fonte barata e limpa. Uma das soluções desse problema é o uso de baterias no grid (Battery Energy System Storage – BESS), uma vez que esta é capaz de deslocar temporalmente a geração de energia e prover estabilidade ao grid. Alguns exemplos, como a Califórnia, já nos mostram como o desperdício de energia começa a melhorar com a utilização massiva de BESS.

Na analogia deste Kinea Insights, as baterias são o “metrônomo” que sincroniza a entrada das renováveis. Vamos explorar esse paralelo, destacando como os BESS estão reacelerando a matriz energética renovável: reduzindo curtailment, recuperando energia antes desperdiçada e elevando a eficiência dos ativos já conectados ao grid — um passo decisivo para destravar a próxima etapa da transição energética.
O INSTRUMENTO: RENOVÁVEIS NO GRID ELÉTRICO
A matriz energética global hoje está longe de ser “renovável”: cerca de 85% da energia ainda vem de petróleo, carvão e gás. Mesmo após décadas de debate climático, esses combustíveis continuam sustentando a economia mundial.

A eletricidade representa apenas uma parcela minoritária do consumo energético total. Atualmente, algo em torno de 20% da energia final consumida globalmente é na forma de eletricidade; todo o restante corresponde a usos diretos de combustíveis em transporte, indústria, aquecimento e outras aplicações.

Se as fontes renováveis ainda representam pouco para o consumo total de energia, para a geração de eletricidade a história é outra. Fontes como eólica e solar já totalizam aproximadamente 15% da oferta global de energia elétrica e, em países como a Alemanha, já chegam a cerca de 43%.


Como vimos, esse crescimento de renováveis cria instabilidade na rede e o curtailment é um mal necessário para manter a saúde do sistema elétrico. A seguir vamos explorar as principais causas desse problema.
A FALTA DE RITMO: CURTAILMENT
De forma simples, curtailment é o ato deliberado, tomado pelo operador do sistema de energia, de reduzir a saída de geradores de energia renovável abaixo do que poderiam produzir. Se no filme Whiplash a dificuldade era atingir o tempo exato da música, no setor elétrico o desafio é alinhar o tempo da geração com o do consumo.

Esse fenômeno vem ocorrendo com frequência crescente em mercados que adotaram renováveis em larga escala. Na China, por exemplo, províncias chegaram a registrar taxas de curtailment superiores a 20% da energia eólica/solar gerada. Ou seja, mais de um quinto da produção renovável foi jogada fora.

O problema por lá era a falta de linhas de transmissão, a geração de energia não chegava ao centro consumidor. Após investimentos pesados em infraestrutura de linhas de transmissão, a China conseguiu reduzir o curtailment para menos de 6% em 2023.

No Reino Unido, o cenário é semelhante. Após grandes investimentos em eólica offshore, o país agora corre para integrar essa geração ao grid. Apenas três utilities locais (SSE, National Grid e Iberdrola) anunciaram mais de £60 bilhões em investimentos, entre 2026 e 2030, para reforçar a rede de transmissão, destravando capacidade para energia limpa e acelerando o cumprimento das metas de descarbonização.

Esses números ilustram bem o dilema: embora tenhamos capacidade instalada renovável, muitas vezes a geração não está “no ritmo” da demanda, assim como um baterista fora do tempo.
Mesmo com linhas de transmissão suficientes, o curtailment continua sendo um desafio. Fatores como superoferta de energia, inflexibilidade do grid e restrições no controle de frequência continuam existindo.
O Brasil ilustra bem esse cenário. Apesar do sistema elétrico ser conectado entre todas as regiões, entre janeiro de 2023 e outubro de 2025, estima-se que mais de 35 TWh, ou, 6 bilhões de reais, foram perdidos por cortes em usinas eólicas e solares causados pela superoferta de energia. Essa energia desperdiçada é o equivalente para manter o Brasil todo operando em plena carga por três semanas ininterruptas.


A superoferta de geração renovável pode ser atacada com a adoção em massa de baterias, que funcionariam como um metrônomo, dando o ritmo necessário ao grid e deslocando temporalmente o excesso de energia gerado no pico de sol para o pico de consumo ao final do dia.
O METRÔNOMO: BATERIAS NO GRID
No clímax de Whiplash, Andrew dá tudo de si em um solo magistral, finalmente acertando o tempo e conquistando o respeito do maestro. No sistema elétrico, o metrônomo que promete resolver o problema de tempo das renováveis atende pelo nome de BESS (Battery Energy Storage Systems), ou sistemas de armazenamento de energia em baterias.

Essa estratégia é exatamente o que a Califórnia vem adotando. Por lá, a adoção em massa de baterias no grid já começa a mostrar os primeiros sinais de redução de curtailment.

Essa estratégia já tem levado a uma queda no desperdício de energia limpa, mas esse processo não acontece da noite para o dia. Ele só começa a ganhar força quando a capacidade instalada de baterias atinge acima de 20% da potência total das fontes renováveis.
Quando entram no sistema, as primeiras baterias normalmente são usadas para tarefas rápidas e essenciais: manter a frequência da rede estável, aliviar pontos locais de congestionamento e suavizar variações abruptas na geração. Isso consome boa parte da “capacidade de fôlego” das baterias, deixando menos espaço para estocar grandes volumes de energia e deslocá-los do pico de geração para os horários de maior consumo.

Em resumo, as baterias podem ser a solução para o paradoxo das energias renováveis. Na próxima seção exploraremos como esse mercado tem evoluído e as potenciais avenidas de crescimento.
O SOLO PERFEITO: AS BATERIAS NO PALCO PRINCIPAL
A capacidade global de baterias estacionárias ainda é ínfima: cerca de 200 GWh no fim de 2023, suficiente para sustentar o consumo elétrico mundial por poucos minutos. Em outras palavras, iniciamos esta etapa da transição energética praticamente sem um “backing track” de baterias para apoiar solar e eólica.
No entanto, o custo cada vez mais acessível das baterias tem mudado esse cenário. Entre 2022 e 2025, o preço dos sistemas de baterias caíram 72% na China e 63% nos EUA, impulsionado pelos ganhos de escala, avanços tecnológicos e políticas públicas de incentivo à tecnologia.

Esse barateamento tornou projetos de armazenamento financeiramente viáveis, atraindo investidores e ampliando sua adoção. Hoje, a TIR (taxa interna de retorno) de muitos empreendimentos de BESS alcançou patamares atraentes o suficiente para justificar implementações em larga escala.

Nos Estados Unidos, a virada de jogo das baterias foi catalisada pela combinação de fortes incentivos federais e investimento privado. A recente lei conhecida como Inflation Reduction Act (IRA) estabeleceu créditos fiscais para projetos de armazenamento isolados, sem necessariamente estarem atrelados a geração solar, algo inédito até então.
Atualmente, sistemas de solar + baterias nos EUA já competem com térmicas peaker (ligadas somente em picos de demanda), entregando potência firme por horas a custo competitivo. As baterias deixaram de ser coadjuvantes e entraram ao palco principal.

Como consequência, o armazenamento em baterias nos EUA deve quase dobrar em 2026, com quase 20GW entrando em operação, elevando o total para cerca de 35 GW. E o movimento é global: a China, por exemplo, tem exigido e subsidiado BESS em novos parques renováveis, o que fez disparar uma onda de novas instalações de baterias na região, representando quase metade das instalações em 2025.

Além disso, a pressão dos hyperscalers por energia imediata para seus data centers, somada ao prazo de entrega de mais de quatro anos para novas turbinas a gás e aos entraves regulatórios de conexão de alto consumo no grid, favorece o combo solar + bateria. Essa solução é mais barata e muito mais rápida de implementar, encurtando o tempo de conexão.

Recentemente, com este intuito, o Google adquiriu a Intersect Power, desenvolvedora de parques renováveis, garantindo fornecimento direto para seus data centers. A escolha reflete uma lógica simples: diante da necessidade de “energia agora”, parques solares combinados com BESS podem ser implantados e conectados em meses, superando amplamente o cronograma das alternativas térmicas, que, apesar de mais confiáveis, enfrentam gargalos na cadeia de produção.
Todos esses vetores devem levar a reaceleração da energia renovável e a adoção em massa de baterias. Com o BESS, a migração do grid elétrico na direção das renováveis deixou de ser apenas uma escolha ambiental e tornou-se, de forma crescente, uma decisão economicamente racional.

FORA DO TOM: RESTRIÇÕES E DEPENDÊNCIA CHINESA
A expansão de renováveis + baterias também altera a geografia industrial da energia. A China, atualmente, domina a oferta dos sistemas de baterias, respondendo por mais de 70% da fabricação global e, além disso, as líderes chinesas CATL e EVE Energy produzem hoje as melhores células para aplicações em BESS – reconhecidas por alta densidade energética, confiabilidade e custo competitivo.

Para reduzir essa dependência, os EUA têm criado barreiras à importação de células chinesas e ampliado incentivos para a produção local, como o Advanced Manufacturing Production Credit (Seção 45X), com créditos equivalentes a cerca de metade do custo de produção. Mas, para obter o benefício máximo, é necessário seguir desde o início regras rígidas de origem, que ficarão cada vez mais restritivas ao longo dos próximos anos.

O gargalo crítico está na produção de baterias LFP (lítio ferro fosfato), química que hoje domina as aplicações em BESS. Se mais de 70% dos sistemas completos de baterias são fabricados na China, a predominância nos insumos é ainda maior para baterias LFP: praticamente 100% do cátodo e mais de 90% do ânodo vêm de entidades chinesas.

O problema é que somente o cátodo representa cerca de 41% do custo de uma célula. Como, a partir de 2026, as regras de conteúdo nacional permitirão no máximo 40% do custo vindo da China, que produz 99% do cátodo para baterias LFP, esse único componente já comprometeria o cumprimento da regra e o acesso integral aos incentivos fiscais.
O resultado é um paradoxo: o incentivo fiscal existe e é robusto, mas o acesso pleno a ele depende da substituição de elos da cadeia que, hoje, ainda são fortemente concentrados na China. Acreditamos que essa regra precisará ser revista dado a emergência do tema energético nos Estados Unidos.
Em resumo, a corrida pela transição energética vai muito além de instalar novas renováveis. O avanço de BESS exige resolver gargalos tecnológicos, regulatórios e geopolíticos: alinhar incentivos robustos, reduzir dependências críticas da cadeia chinesa e ampliar a capacidade industrial em ritmo acelerado.
NOSSA EXPOSIÇÃO AO SETOR
Mantemos um portfólio diversificado para capturar oportunidades neste tema, com alocação em três frentes: (i) Utilities que desenvolvem ativos renováveis e infraestrutura de transmissão; (ii) provedores de equipamentos para parques solares nos EUA; e (iii) fabricantes de baterias, notadamente CATL e LG Energy Solutions.

Nas utilities, a alta dos preços de energia e a adoção de BESS devem impulsionar a rentabilidade das geradoras de energia renovável. Nosso portfólio, em geração, inclui Nextera Energy e AES Corp (EUA), RWE e EDP Renováveis (Europa). Em transmissão, investimos em SSE e National Grid, no Reino Unido, que devem se beneficiar do maior investimento em linhas devido a expansão dos parques eólicos offshore.
No segmento de solar, depois de anos de desaceleração, acreditamos que o desenvolvimento de sistemas de BESS de grande porte viabilizará a reaceleração do segmento solar, agora também impulsionado pela urgência de conexão ao grid dos data centers.
Recentemente vimos a disparada do preço de alguns materiais relevantes para o custo de painéis solares, como a prata, que representa cerca de 14% do custo de um painel solar, além da discussão no congresso americano sobre eventuais tarifas ao polisilício importado, outro importante componente vital.
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Para evitar exposição à commodity, optamos em painéis, no momento, pelo investimento apenas na americana First Solar, que produz painéis solares com uma tecnologia diferente do padrão de mercado, e com isso não tem exposição à prata e ao polisilício. Além da First Solar, nossa exposição é composta por empresas expostas à construção de parques solares nos EUA, como Nextpower, Array e Shoals.
Por fim, mantemos também posição em baterias. Não existem empresas americanas com capacidade para prover o mercado de baterias. Investimos na coreana LG Energy Solutions, uma das principais beneficiadas das regras do governo americano e na líder global CATL.
CONCLUSÃO
No final de Whiplash, após tensão máxima, maestro e pupilo entram em sintonia e entregam uma performance extraordinária. A analogia serve de inspiração: estamos caminhando nessa direção, prestes a alinhar o tempo da geração renovável com o do consumo graças às baterias.
A transição energética em curso exige persistência, investimentos e a busca incessante pela melhoria, assim como Fletcher exigia nada menos que perfeição. As baterias despontam como o elemento catalisador que pode levar os renováveis ao próximo patamar, reduzindo desperdícios, agregando flexibilidade e permitindo que a música das energias limpas toque mais alto e clara.
Em meio a essa evolução, o importante é manter o foco no objetivo de longo prazo, tal como Andrew manteve o compasso apesar do suor e do sangue. As baterias definitivamente entraram em cena para “acertar o tempo” dos renováveis. Afinal, como nos lembra Whiplash, a busca pela perfeição é árdua, mas os resultados podem ser espetaculares quando finalmente “entramos no ritmo”.
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